Formation - 16 de Novembro de 2017

pt - Paz, Justiça e Instituições Atuantes


“La paz no es solamente la ausencia de la guerra; Mientras haya pobreza, racismo, discriminación y Exclusión difícilmente podremos alcanzar un Mundo de paz.” Rigoberta Menchú


Queremos que nossas comunidades sejam pacíficas, inclusivas e justas, porém, constantemente esquecemos de que tudo está interconectado em uma vivencia de forma articulada e de interdependência com toda a criação. Toda a questão tecnológica do sistema atual econômico financeiro-produtivo precisa ser mudada, transformada, para que realmente o sistema respeite os seres humanos em primeiro lugar, como também toda a criação. Torna-se urgente o exercício continuo de olhar, cuidar do planeta, de nossas relações e cultivar espaços de autonomia, democracia e liberdade.


Acreditar em um futuro com esperança é fundamental, mas, como nos ensina Paulo Freire : “Tem que ter esperança do verbo esperançar, [que] é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. [...] é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída.”


Somos todos|as chamados|as a esperançar, a cuidar de nossa casa comum... a caminharmos por vias de justiça, paz e por instituições que precisam de fortalecimento em diferentes níveis com participação e comprometimento das pessoas.


A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, elaborada pela ONU , objetiva concretizar, através de redes e parcerias colaborativas, os direitos humanos de todos|as. A Agenda em seu Objetivo 16 prever: “Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”.


No atual cenário brasileiro de violações contra direitos garantidos, de retrocessos, as instituições sociais têm papel de destaque, merecendo nossos investimentos, pois podem, através de projetos efetivos, colaborar para uma conscientização e participação cidadãs, uma democracia participativa.


O recente golpe que sofreu o Brasil, cognominado por especialistas como de classe e midiático, tem tido severas repercussões na vida da maioria da população, aumentando significativamente a exclusão e abismo sociais. Servindo-se de mecanismos de seleção e combinação, como nos adverte Pedrinho Guareschi , para produção e veiculação de notícias, os meios de comunicação sociais tiveram e têm um grande papel na manipulação das massas. O primeiro mecanismo de produção de notícias consiste na eleição de elementos que serão veiculados, numa passeata, por exemplo, a despeito de incontáveis situações ocorridas, o noticiário, dependendo de sua linha editorial, irá exibir possíveis depredações ou enfatizar o motivo que levou as pessoas ao ato público. O segundo mecanismo equivale em se colocar junto dois acontecimentos (fatos, imagens) que não guardam vinculação entre si, fazendo o leitor/telespectador atribuir-lhes relação. A ideologia, – que se refere ao conjunto de ideias (ainda que incompletas, distorcidas, falsas), valores, maneira de sentir e pensar de pessoas e grupos, – estará presente na produção e veiculação das notícias.


Avram Noam Chomsky também acrescenta outros mecanismos de manipulação midiática, vejamos, em suas palavras, como descreve a estratégia da distração: “Manter a atenção do público desviada dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado e ocupado, sem nenhum tempo para pensar, de volta à granja, com os outros animais”.


Podemos enumerar, a partir de Noam Chomsky, outras estratégias, à guisa de demonstrar o quanto nossa liberdade de opinião e ação é moldada ou determinada pela grande mídia, pertencente, aqui no Brasil a seis famílias, comprometidas com a manutenção de privilégios para uma (ínfima) minoria da população. Vejamos au passant as dez estratégias de manipulação elaboradas a partir de Chomsky :


1. A estratégia da distração – dilúvio de informações sem importância com a finalidade de distrair em relação ao que verdadeiramente importa;


2. Criar problemas e depois oferecer soluções – também chamada problema-reação-solução;


3. A estratégia da gradação – aplicar medidas a conta-gotas para torná-las aceitáveis;


4. A estratégia de diferimento – apresentar medidas como dolorosas e necessárias;


5. Dirigir-se ao público como se fossem crianças – em razão da sugestão, responde como criança, desprovida de senso crítico;


6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão – mais fácil para implantar ideias, emoções, medos, para induzir comportamentos;


7. Manter o público na ignorância e na mediocridade – com uma educação inferior e medíocre é mais fácil manipular e roubar do povo a liberdade;


8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade – fazendo-o acreditar que é moda ser medíocre, vulgar, inculto;


9. Fortalecer a culpa – fazer com que o indivíduo se sinta o único culpado pela sua desgraça, o que o leva a depressão, inibição de sua ação, sem a qual não há revolução;


10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem – em função dos avanços nas diversas áreas do conhecimento, o sistema tem desfrutado de amplo conhecimento a respeito do ser humano, o que permite ou facilita o seu controle e manipulação.


"A população geral não sabe o que esta acontecendo, e nem mesmo sabe que não sabe." Noam Chomsky


Os movimentos e instituições sociais, – que já tinham nas últimas décadas, não por acaso coincidindo com o período de ditadura militar, um importante papel como força de resistência que corroborou para seu fim e a inauguração do período (ainda em curso) de democratização e de busca de conquistas sociais, – passam a ter, neste cenário Temer(oso), um dever e obrigação de trabalharem para a salvaguarda e (re)conquista de direitos que estão sendo retirados literalmente da noite para o dia. Sem o trabalho de conscientização das pessoas acerca dos diferentes mecanismos de dominação e manipulação das massas, não temos como realizar uma real democracia e salvaguarda de direitos. Nosso trabalho na e através das instituições sociais deve se voltar para uma leitura de mundo que permita ver que é imprescindível que estejamos despertos|as em relação aos mecanismos que tendem a fazer-nos acreditar que somos minoria e até mesmo incapazes de transformar a realidade onde estamos inseridos|as, fazendo-nos, ao contrário, tomar nossa parcela de responsabilidade na vivência de relações de interdependências e corresponsabilidades para a promoção da dignidade da vida.


Nosso compromisso é com a leitura crítica e comprometida do mundo, é com o processo de conscientização e democratização, nossa busca é da verdade. Aqui citamos o escritor George Orwell que em 1948 concluiu seu livro intitulado 1984 (que poderia se chamar 2017): “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”.


Nesta direção, faz-se mister a busca de fontes fidedignas de informações , a leitura e reflexão acerca dos fatos apresentados sob prismas diferentes e mesmo antagônicos, o exercício de produção de textos, escritos ou não, enfim, que possamos abandonar a posição e atitude passiva, de telespectador|a, assumindo, ao contrário, uma ativa, de coatores.


Iremos explicitar abaixo algumas experiências que buscam exercitar nos|as envolvidos|as uma consciência crítica, cidadã, participativa, como alternativa ao poderia midiático que tenta nos manter numa atitude acrítica, não comprometida, insensível, apática, estática.


O Centro de Educação Popular Assunção (CEPA), – organização que surgiu da iniciativa das Irmãzinhas da Assunção numa periferia de Caruaru-PE, em meados da década de 1990, e formalizou-se juridicamente falando em 2003, reafirmando seu compromisso com a educação popular e com sua condição de espaço formativo, – tem procurado desenvolver ou apoiar projetos que buscam despertar e capacitar o protagonismo infanto-juvenil. Citemos alguns exemplos neste sentido. Como fruto das oficinas de audiovisual, os|as participantes, tendo consigo câmeras fotográficas, puderam capturar imagens da comunidade, de cenas e situações por vezes invisíveis aos olhos de transeuntes apressados|as, desatentos|as ou conformados|as. A exposição com as imagens selecionadas pelos|as participantes do grupo foram reunidas sob o título “Meu Quintal” e depois exibidas e discutidas com membros da comunidade.


Está também o CEPA retomando oficinas de produção de jornalzinhos com adolescentes e jovens, capacitando-os a ler e interpretar fatos, a produzir notícias de interesse comunitário.


Como uma maneira de exercitarmos uma ação concreta de solidariedade, seguindo a orientação da Congregação, o CEPA, em parceria com o Colégio Municipal Santo Amaro, sob animação da comissão de JPIC, conseguiu sensibilizar jovens da comunidade para a situação da população da República Democrática do Congo, sujeita a altíssimos índices de violência, pobreza e massacre. Puderam os|as jovens, juntando-se a outros internautas-militantes, assinar a petição da Avaaz que exigia a constituição de equipe independente para investigação dos crimes e violações ocorridos sistematicamente no Congo .


Que os nossos atos e crenças nos direcionem a um compromisso sério com a formação, educação e a construção de cidadania. Que crie e proporcione alternativas orientadas aos valores e leituras críticas que permitam maior entendimento, interação e divulgação na sociedade sobre uma comunicação participativa, inclusiva e libertadora.


Cleminton F. B. Tabosa


Marcia Ferreira, Irmãzinha da Assunção