Projets - 12 avril 2017

fr - Caruaru (Brasil). Memorial : Pobreza, Desigualdades e Educação


“Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver mais refazer, reconstruir repensar com imagens e ideias de hoje as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho” (Bosi).


Este memorial é resultado das diferentes atividades realizadas a partir do módulo introdutório, do início do curso de especialização educação, pobreza e desigualdade social. O referido material é uma narrativa das experiências vividas e reinventadas, consiste em um trabalho que se aproxima do mentor da educação para a consciência, conforme salienta Paulo Freire :


Que a nossa presença no mundo, implicando escolha e decisão, não seja uma presença neutra. A capacidade de observar, de comparar, de avaliar para, decidindo, escolher, com o que, intervindo na vida da cidade, exercemos nossa cidadania, se erige então como uma competência fundamental. Se a minha não é uma presença neutra na história, devo assumir tão criticamente quanto possível sua politicidade. Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo ; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas para participar de práticas com ela coerentes (FREIRE, 2000:33).


Eu aluna do referido curso, Marcia Ferreira Silva, iniciamos o curso no dia 25 de agosto de 2015 a distância ; da rede de acesso moodle o referido módulo introdutório abordou assuntos sobre a pobreza, desigualdades e educação.


Comecei refletindo e revendo os meus próprios conceitos sobre a pedagogia e docência, que resistem a dar a centralidade devida às bases materiais do viver, do pensar, do ser sujeito intelectual e moral. Fazer memória de conhecimentos e entendimentos sobre a pobreza me interpela profundamente sobre o conceito do despojamento, ter e não ter, voltado a oportunidades e espaço de garantia de direitos reservados para alguns e insistência de outros em crescer e desenvolver-se rumo à construção e efetivação de direitos. Adquirir conhecimentos, otimizando oportunidades e reinventando alternativas de inclusão aos diferentes indivíduos de nossa sociedade.


De que formas a escola poderia distanciar-se do papel moralizador dos pobres e operar no enfrentamento das consequências da pobreza no desenvolvimento intelectual dos pobres ?


A escola ocupa um papel fundamental de amadurecimento de consciência promoção e aquisição de conhecimento, aprendizagem, autonomia e crescimento na visão de direito universal para todos, possibilitando assim, ao estudante, perceber-se como autor e sujeito atuante e modificador de sua própria história e mundo.


Contudo trabalhar em diálogo e articulação com as diferentes parcerias encontradas na REDE sejam elas, no âmbito, educacional, socioassitencial, na área da saúde dentre outros exige muita abertura, reflexão, formação contínua, para encontrar soluções e meios pedagógicos voltados para minimizar a pobreza e aumentar esperança e metas para a superação de uma educação de qualidade e inclusiva para todos.


Participar do fórum resultou um espaço de participar das diferentes contribuições dos colegas, advindos de diversos lugares experiências profissionais e acadêmicas, abordar tal reflexão sobre a pobreza no espaço educacional, nos interpela profundamente, colocando-nos em constante reflexão e avaliação de nossas próprias posturas, conceitos, nos questionando com nossa própria ética e moral frente ao tratamento e, consciência em colaborar frente ao empoderamento do indivíduo e seu lugar e autonomia no coletivo enquanto pessoa vivenciando a pobreza enquanto despojado de outras possibilidades, mas autor e buscador de meios, ações e programas que possibilite maior chance de usufruir e almejar novos acessos à escola com qualidade, benefícios e programas que efetive os direitos garantidos por vias da promoção da dignidade humana e justiça social na certeza de que unidos e por meios pacíficos e inclusivos de fato, alcançaremos um mundo melhor de se viver.


Em realidade, a caracterização dos (as) pobres como inferiores em moralidade, cultura e civilização tem sido uma justificativa histórica para hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los (as) nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural (ARROYO, 2013).


Conhecer melhor o município de Caruaru é intensificar um olhar amplo da realidade que gera indagações frente às demandas e possibilidades, estando de um lado os diferentes destaques, seja no âmbito econômico, cultural, acadêmico dentre outros e de contraposição uma cidade que segue com disparidades entre ricos e pobres, e segundo o senso de 2010 demostra um número elevado de mulheres com (53%) em um nível de extrema pobreza e tendo uma média de (59,7%) que se declararam como negros, mostrando assim, uma necessidade de continuidade da promoção, efetivação e garantia de direitos que perpassa nas políticas públicas voltadas as minorias e lutas. É necessário um trabalho cotidiano continuo, onde cada um de nós pode desenvolver no espaço onde estamos inseridos sendo muito importante conhecer a realidade a partir do mesmo fazer a diferença por um mundo possível e necessário.


Sou natural de Belo Horizonte vinda do estado de Minas Gerais e há seis anos moro em Caruaru. Trabalho na Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, estou como coordenadora no Centro de Referência da Assistência Social – CRAS e no Serviço de Convivência e fortalecimento de vínculos (SCFV).


A função que ocupo me deixa muito próxima da pobreza e do que ela gera e afeta na vida das pessoas, a pobreza configurada como despojamento, alguém não tem ou pouco possui, enquanto outro possui de maneira elevada privando ou vinculando o sujeito com a garantia de poderes e acessos. Como nos aponta Quijano (2005)


Essa é uma história que perdura desde a colonização. A produção dos (as) pobres é articulada e reforçada com os processos sociais que conferem assimetria à diversidade, reduzindo o diferente à condição de inferioridade. No contexto social e político, isso se deu pela expropriação violenta de suas terras, seus territórios, suas culturas, suas memórias, suas histórias, suas identidades, suas línguas, sua visão de mundo e de si mesmos(as). Esses coletivos foram decretados inferiores6 e mantidos à margem da produção intelectual, cultural e ética da humanidade (p. 134).


Sem dúvida entrar em um processo de educação do olhar sobre a pobreza, suas consequências e, por conseguinte, sobre os sujeitos em situação de pobreza e de extrema pobreza é um longo e árduo caminho a seguir, mas sei que não o faço sozinha, guardo minha esperança no investimento da educação como meio de maior consciência e amadurecimento político, por vias de superação e inclusão possibilitando assim empoderamento da pessoa.


Embora o CRAS seja a porta de entrada e saída da família oferecendo diferentes serviços, de forma preventiva na Proteção Social Básica (PSB), as famílias frequentam a unidade na busca de solicitar acesso aos diferentes benefícios ofertados pelo CRAS, tais como ; cesta básica, certidão de nascimento, enxoval para o bebe, auxilio aluguel, preenchimento de formulário ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), inclusão e atualização do Programa Bolsa Família, incluindo a justificativa da frequência escolar e atendimento ao desbloqueio de cartão PBF, encaminhamento para tratamento psicológico sistemático, Conselho Tutelar, Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), Secretaria da Mulher, acompanhamento e entrega do pão e leite de soja, cursos de geração de renda, acompanhamento familiar através do serviço de Proteção Integral à Família (PAIF) dentre outros serviços, por sua vez, trabalhando com a matricialidade, ou seja, um olhar sobre a família e proporcionando diálogo com as diferentes instituições existentes no território de abrangência do CRAS, possibilitando e ampliando assim uma articulação da rede de proteção social básica intersetorial, para atuar de maneira conjunta na garantia de direitos do cidadão e da comunidade com perspectivas de diminuir as desigualdades.


Por fim, as discursões acerca das reflexões estabelecidas no reconhecimento da existência da pobreza e das desigualdades sociais, preparando e enviando diferentes atividades que me proporcionaram conhecimento, diálogo, e visão ampliada a partir das diversas experiências sobre as diferentes faces da pobreza e suas implicações na vida cotidiana.


Ir. Marcia Ferreira Silva Secretariado Internacional Justiça, Paz Integridade da Criação


REFERÊNCIAS : ARROYO, Miguel Gonzalez. Os coletivos empobrecidos repolitizam os currículos. In : SACRISTÁN, José Gimeno (Org.). Saberes e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre : Penso, 2013. BOSI. E. Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos. São Paulo : Cia das Letras, 1995. FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação : cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo : UNESP. 2000. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In : LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber : eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires : Clacso, 2005.